A preserveção da Esperança...
Hoje estou com 43 anos de idade, nasci em novembro de 1982, e preservo um saudosismo que me remete a memórias e saudosas lembranças dos 8 aos 15 anos de idade, durante a infância e a pré-adolescência, quando morei no interior capixaba, na cidade de Barra de São Francisco - ES.
Naquela época, ainda pude contemplar a inauguração de uma nova praça no centro da cidade, e frequentei as sessões do cinema em Barra de São Francisco, nos últimos anos em que funcionou a sala ao lado do Bar do Cinema, onde conheci o Tio Neném, amigo de meu pai.
Assisti Xuxa e os Trapalhões, Rambo, e a transmissão das finais do Campeonato Carioca, quando a sala se tornava o nosso Maracanã, lotada por flamenguistas e vascaínos franciquenses.
Estas lembranças são parte do meu saudosismo. Entre outras memórias, a saída da Escola João Bastos, o percurso às margens do Rio Itaúnas, nosso pula-pula na travessia da pinguela de madeira. Outra diversão era jogar barquinhos de papel no rio e correr para o outro lado da ponte para observar os barquinhos navegarem... o rio se tornava um mar de imaginação, sonhos e esperança.
Não quero desmerecer as gerações que vieram após o período entre 1982 e 1989; contudo, para além das exceções, considero que a geração daqueles que nasceram nos anos 80 pode ter sido uma das últimas a ter a oportunidade de uma formação diferenciada.
Testemunhamos o reinício da democracia, num tempo em que a sala de aula era um universo entre a imaginação e o respeito às professoras e aos professores, e quando a professora entrava na sala, aquela régua de quase 1 metro era símbolo de silêncio... Embora, de todo modo, a régua jamais tenha sido usada para nos impor punições.
Nossa geração presenciou um período de transição fascinante. Vivenciamos um tempo em que as mudanças ainda davam espaço para a reflexão — algo raro hoje em dia, com a alta velocidade do mundo moderno. Acompanhamos a evolução dos telefones celulares que pareciam tijolos, a transição das antigas brincadeiras de rua para a chegada da internet, e dos jogos tradicionais (como bolinha de gude e pique-esconde) para o universo dos videogames e do Counter-Strike.
Entre tantas lembranças marcantes, um período especial moldou a minha formação cidadã na Escola João Bastos, onde cursei da terceira à quarta série. A política e a cidadania invadiram a nossa rotina escolar de forma muito viva. Primeiro, vivenciamos o clima do Impeachment de Fernando Collor em 1992: inspirados pelos "caras-pintadas" que tomavam as ruas do país, nós também fizemos a nossa própria manifestação na escola, com os rostos pintados e muita energia.
Logo em seguida, em 21 de abril de 1993, aconteceu o Plebiscito, definindo os rumos institucionais do Brasil após a redemocratização. Conforme previsto pela Constituição de 1988, a população foi às urnas para escolher a forma e o sistema de governo do país. Na escola, acompanhamos esse momento com uma simulação de votação que transformou as salas de aula em uma verdadeira experiência democrática.
Na votação real daquele ano, o modelo republicano e presidencialista acabou sendo mantido com ampla margem:
Forma de Governo: A República venceu com cerca de 66% dos votos válidos (cerca de 44,2 milhões de votos), enquanto a Monarquia ficou em segundo lugar com cerca de 10% (6,8 milhões de votos).
Sistema de Governo: O Presidencialismo garantiu a primeira posição, seguido pelo Parlamentarismo em segundo lugar.Essas vivências na escola — entre os rostos pintados pelos ecos dos "caras-pintadas" e as urnas simuladas do plebiscito — uniram perfeitamente a inocência da infância aos nossos primeiros passos na compreensão da democracia.
Ainda, naquele período, lembro-me do jingle da campanha de Lula à Presidência... Uma música que, até hoje, quando escuto, me desperta emoção: "Lula lá, brilha uma estrela. Lula lá, cresce a esperança. Lula lá, o Brasil criança. Na alegria de se a braçar..."
Hoje, adulto e já com maturidade para a reflexão, é inimaginável para mim pensar que, naquele plebiscito, houve quem votasse pela monarquia. E, conhecendo a conduta de nosso parlamento, é possível respirarmos aliviados por não ter ganhado o parlamentarismo.
De forma semelhante, para mim é algo inimaginável ver professores e professoras, pessoas atuantes no meio ambiente e demais figuras que para nós sempre foram referências de luta, de enfrentamento às injustiças sociais, de defesa da democracia e dos direitos humanos, figurarem hoje numa posição que defende um projeto de extrema direita, a ditadura militar, a desesperança, o fascismo e o autoritarismo — que, na história recente, teve sua responsabilidade na morte de milhares de brasileiros por Covid-19.
Eu fico muito triste e decepcionado.
Por outro lado, externo a minha imensa gratidão a todas as educadoras e a todos os educadores que contribuíram para a minha formação e cidadania. E que hoje, num tempo que nos chama para lutar, permanecem nos inspirando esperança.
Neste domingo, 25 de outubro, cabe a todas e todos a compreensão de que não se trata de votar ou não no Partido dos Trabalhadores, de votar ou não em Lula. É algo muito maior: representa preservar a democracia e as nossas liberdades, significa posicionar-se contra o obscurantismo e o autoritarismo.
E, nesse sentido, convido quem possa estar indeciso — quem pensa em votar num certo candidato apenas por não querer votar em Lula —, a refletir e ter bom senso, por um Brasil soberano, pela democracia e pela preservação da esperança.
Por Luciano Guimarães de Freitas
Cineclubista ; Poeta ; Realizador Audiovisual
Comentários
Postar um comentário
Querido (as), é uma satisfação receber seu comentário, a sua participação é a prova de que de não existe o autor senão houver a obra, e não existe a obra senão houver o público apreciador e crítico desta Obra.
Obrigado pela partipação de todos vocês.
Se desejarem enviar alguma sugestão, deixo-vos meu e-mail a disposição: lgfprodcultural@gmail.com
Minhas sinceras considerações, meu carinho e gratidão.